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MATÉRIA TECNOLOGIA: Interface de Vidros e Perfis - Matéria Publicada em 28/04/2006 - |
Componentes industrializados aplicados no
fechamento de fachadas, os vidros e os perfis metálicos têm diferentes
propriedades que merecem análise cuidadosa, como mostra este artigo de Regina
Xavier Costa, Ernâni Carlos de Araújo e Henor A. de Souza.*
Nos últimos anos, a construção civil brasileira vem buscando a racionalização
por meio da adoção de sistemas construtivos tecnicamente mais avançados, em
substituição aos processos tradicionais, que geram retrabalho e desperdício. Com
isso, a estrutura metálica passa a ter papel importante. Como
todos os seus elementos são processados industrialmente, asseguram-se qualidade,
facilidade e rapidez na montagem, além de canteiros de obra menores e com custo
mais baixo. Os perfis metálicos tubulares - de seção transversal
circular, quadrada ou retangular -, juntos com os painéis de vidro,
constituem uma das opções de fechamento externo que mais vêm sendo utilizadas.

Painel de vedação em vidro. Fábrica Açotubo, Guarulhos, SP

Vista do hall de entrada da fábrica
Flextronics,
em Sorocaba, SP
Os perfis tubulares de seção circular aliam eficiência
estrutural à limpeza visual, características desejadas por arquitetos.
Apresentam boa resistência aos esforços de compressão e torção; possuem menor
área de superfície (de 20% a 30%) em comparação com as seções abertas, o que
leva à redução no custo com pintura e material de proteção contra incêndio. Os
pilares podem ser preenchidos com concreto (estruturas mistas), gerando um ganho
adicional de resistência, incluindo contra o fogo. Quando são produzidos sem
costura revelam maior resistência à corrosão, uma vez que não têm frestas nem
arestas.

Fachada-cortina com vidro encaixilhado, apoiada por poste baixo, no restaurante da Flextronics
Já os tubos de seções quadrada e retangular, além dessas vantagens, pelo
fato de possuírem superfícies planas, apresentam facilidades no corte e nas
ligações. O vidro tem como características básicas possuir peso elevado e
aceitar pequenos deslocamentos, exigindo um cuidado especial nas fixações, para
que não ocorra trinca ou mesmo quebra.
Cargas atuantes
Quando se pensa na interface de utilização desses materiais, alguns aspectos precisam ser considerados. Normalmente, os perfis metálicos são esbeltos, compondo estruturas muito leves, que estarão submetidas a grandes esforços verticais - decorrentes do peso próprio da estrutura e do fechamento - e também horizontais, provocados pelo vento. O aço apresenta alta condutibilidade térmica, o que provoca grande movimentação da estrutura, se comparada à de concreto armado. É importante levar em consideração que esse deslocamento é maior onde ocorre diferenciação acentuada de temperatura entre o dia e a noite, como no território brasileiro. A movimentação não deve transmitir esforços para o subsistema de fechamento.
Os materiais utilizados no fechamento
apresentam, por sua vez, propriedades diferentes de absorção e transmissão de
calor e de umidade, que produzem sua dilatação e contração. Esse fato deve ser
previsto com a utilização de juntas, que, convenientemente tratadas,
permitirão a dilatação térmica e ao mesmo tempo garantirão a
estanqueidade.
Entre os fatores que afetam a interface, os mais importantes são
as cargas atuantes, os movimentos pós-montagem, as tolerâncias e as juntas, os
sistemas e dispositivos de fixação. São consideradas cargas atuantes
aquelas resultantes da ação do peso próprio, da ação do vento e aquelas
decorrentes de impacto. O peso próprio inclui o tipo de vidro utilizado no
fechamento, bem como o peso dos elementos que compõem o sistema de fixação do
painel. A ação do vento pode se dar por pressão direta (positiva) ou por
pressão negativa (sucção), e as cargas dela provenientes são as dominantes no
cálculo dos sistemas de fechamento. E, por último, o painel de vidro precisa
resistir aos impactos e ter capacidade de transferir uma parte da carga para
a estrutura de suporte.

Montagem da fachada com estrutura auxiliar em treliça triangular,
no Centro Brasileiro Britânico, São Paulo
Tolerâncias
Após a montagem da estrutura, surgem
movimentos que necessitam de avaliação. No Brasil, tem-se que considerar aqueles
decorrentes da deformação da estrutura, os causados pela dilatação e contração
térmica e absorção de umidade, a oscilação do vento e o assentamento da
fundação. O mais significativo é o ocorrido pela
deformação estrutural, mas todos eles devem ser analisados e estudados, para
que os elementos de fixação e as juntas possam absorvê-los.
A tolerância é a variação dimensional - máxima e mínima - que pode
ocorrer entre o projeto e a medida real de um elemento, e depende
de cada material. Na construção metálica é necessário prever, através de juntas
e folgas, as tolerâncias de montagem (nivelamento e prumo), a movimentação
diferencial entre a estrutura e o subsistema de fechamento, a variação
volumétrica e a tolerância dimensional do painel.
A junta é a distância entre um painel e outro. Ela deve absorver a
tolerância dimensional e a variação volumétrica, causada pelas variações
higrotérmicas. As juntas podem ser horizontais ou verticais, abertas
ou vedadas. Na junta vedada, a estanqueidade à água e ao ar é garantida com
a utilização de material selante monocomponente ou bicomponente e de gaxetas.
Componentes de fixação
Os dispositivos de fixação são os responsáveis
pela união entre os
painéis e a estrutura. Devem apresentar resistência mecânica às
movimentações diferenciais entre a estrutura de suporte e o fechamento, bem como
às variações volumétricas, aos esforços de ancoragem (tração, compressão e
cisalhamento) e à corrosão. E também ter ductilidade, que é a capacidade
potencial de deformação sem perda de resistência.
Esses elementos normalmente são feitos de aço, material que possui
tais propriedades e tem custo relativamente baixo. Para garantir o desempenho
das fixações, elas devem ser corretamente detalhadas e especificadas, além de
atender aos aspectos da proteção contra corrosão e contra incêndio.
Quando sujeitas a intempéries, inseridas em materiais que absorvem água ou
utilizadas em sistemas onde possa ocorrer condensação do vapor de água, é
necessário protegê-las contra a corrosão atmosférica. Outro tipo de corrosão é a
galvânica, que ocorre quando são usados dois metais com grande diferença de
potencial eletroquímico. Quando expostos a determinado meio, como a água, um
pode se corroer enquanto o outro permanece praticamente intato. Nesses casos, os
elementos metálicos precisam ser isolados.
As fixações dos painéis de vidro normalmente estão protegidas contra o
fogo pelos elementos da construção: lajes, painéis internos e sistemas de
interrupção de incêndio. No caso de ficarem aparentes, deverão ser de
aço inoxidável ou receber proteção, que pode ser feita com pintura intumescente.
Nos painéis assentados no sistema de fachada-cortina, que ficam externos à
estrutura de suporte da edificação, é necessário prever proteção adicional,
para impedir que o fogo se propague de um pavimento para outro através dos
espaços que existem entre as lajes e a vedação. Normalmente se usa uma placa
cerâmica ou de lã de vidro, para evitar a passagem do fogo e da fumaça.
Quanto aos sistemas de fixação, os painéis de vidro podem ser colocados de duas
formas: como painel de vedação, em que a estrutura de suporte do edifício
permanece aparente; e no sistema de fachada-cortina, quando o painel de
vidro recobre a estrutura.
Painel de vedação
Quando o vidro é utilizado como painel de vedação, deixando a estrutura do edifício aparente, é aconselhável que ele seja encaixilhado em um perfil. Dentro das opções oferecidas pela construção industrializada no Brasil, a opção mais usual é o perfil de alumínio extrudado (foto 1). Nessa situação, devido à baixa capacidade elástica do material, somada à movimentação da estrutura, é fundamental haver a previsão das folgas no detalhamento dos caixilhos. Outro dado a ser considerado é a capacidade de dilatação do material, que é de um milímetro para cada 100° C. A NBR 7.199/1989 recomenda que os caixilhos trabalhem com uma folga para a borda de três milímetros e folga lateral de dois milímetros.

Figura 1
Detalhe da interface do painel com o pilar metálico, em planta
Portanto, uma folga adequada deve absorver a dilatação e os movimentos
relativos entre o caixilho e a estrutura, considerando o sistema de abertura da
esquadria e o tipo de vidro. Um aspecto a ser observado nesse sistema é a
ausência do contramarco, gerando a necessidade de utilização de um elemento
metálico para receber o caixilho. Geralmente esse elemento é uma cantoneira ou
perfil U de aço, soldado nos pilares, vigas e lajes. A figura 1 mostra um
detalhe de fixação do painel no pilar, podendo-se notar a cantoneira soldada ao
pilar, que serve de apoio para a fixação do caixilho. A folga necessária
para a movimentação do vidro pode ocorrer no próprio caixilho, com a
utilização de calços ou de gaxetas que separam a chapa do perfil de alumínio.
No caso, como a esquadria é de alumínio e a estrutura de aço, é fundamental
prever o isolamento dos metais com uma fita anticorrosiva, para evitar a
corrosão galvânica. O deslocamento da viga de borda (flecha) deve ser compensado
por um sistema adicional, que acomode o movimento sem transmitir o esforço para
o vidro, o que é conseguido com um perfil telescópico na parte superior do
caixilho (figura 2).

Figura 2
Detalhe da interface do painel com a viga superior, em corte
Para o caso de vidros laminados, que apresentam peso mais elevado, o
cuidado com a folga deve ser maior. É imprescindível a utilização dos calços
ou das gaxetas de EPDM, que absorvem os esforços e proporcionam a folga
necessária para a movimentação. O posicionamento dos calços ou das gaxetas deve
ser estudado com o fornecedor. O selante para vedar a folga entre o vidro e o
metal é o silicone de cura acética, indicado para materiais não porosos. Sua
capacidade de movimentação é definida de acordo com seu módulo de elasticidade -
alto, médio ou baixo. Entretanto, em vidros laminados não deve ser utilizado
esse produto, que ataca a película de PVB, provocando infiltração na chapa de
vidro.
Fachada-cortina
Nesse caso, o vidro pode ser encaixilhado
ou colado (sistema structural glazing), com as chapas de vidro unidas por
silicone estrutural, o que requer sofisticado sistema de fixação, composto por:
• parafusos de fixação - dispositivos que ligam a placa à estrutura de fixação;
• elementos de suporte - cantoneiras, aranhas ou pinos;
• estrutura auxiliar - vigas, colunas ou treliças metálicas que transmitem os
esforços do peso próprio, do vento e de outras cargas impostas para a estrutura
de suporte do edifício ou para a fundação.
No detalhamento da fachada-cortina structural glazing devem-se considerar
as movimentações decorrentes do efeito térmico e do
carregamento aplicado, tanto do painel de vidro quanto da estrutura de
suporte. O carregamento pode provocar a rotação do painel e dos seus elementos
de fixação fora do plano. Também devem ser consideradas as tolerâncias de
construção e de montagem, tanto dos painéis quanto dos elementos estruturais, e
a possibilidade de quebra ou remoção de um painel, que provocará aumento da
carga (peso próprio e das cargas transmitidas).
Segundo dados do The Steel Construction Institute (1997), a
adequação do sistema a ser utilizado para a fixação do painel em vidro é
determinada em função da altura da fachada. Os sistemas de fixação podem
ser apoiados ou suspensos. Para as fachadas com alturas entre 2,50 e quatro
metros, pode ser utilizado um sistema simples, composto por postes localizados
na junção entre os painéis (figura 3 e foto 2), ou em número menor, quando
associados a um sistema de braços.
Os postes não necessitam vencer a altura total da fachada, podendo ser, também,
como o caso mostrado no esquema da foto 3.

Figura 3
Fixação com poste
No caso de fachadas com altura acima de quatro metros, é
necessário utilizar uma estrutura auxiliar composta por treliças, que
podem ser triangulares ou do tipo vierendeel, arcos atirantados ou por aletas
verticais. As ligações das treliças com a estrutura de suporte podem ser
rígidas, caso em que haverá transmissão de momento, ou articuladas, evitando o
momento. As treliças triangulares normalmente são compostas por duas
cordas e diagonais, geralmente em tubos de seção circular, sendo que o conjunto
resiste aos esforços resultantes do peso próprio e da ação do vento (foto 4).

Figura 4
Fixação do painel de vidro com arco atirantado
O arco atirantado é composto por uma barra vertical principal, reforçada
por barras horizontais e dois ou mais cabos; normalmente, as ligações são
articuladas (figura 4). O elemento vertical está comprimido (resistindo ao peso
próprio); as barras horizontais resistem aos esforços de compressão e os cabos
resistem aos esforços de tração, em função da direção da incidência do vento no
painel.
Os elementos de fixação têm como função inicial transferir as cargas
atuantes no painel (cargas devidas ao vento, de manutenção e peso próprio) à
estrutura auxiliar. Eles devem resistir, também, aos momentos decorrentes
da deformação dos painéis e dos elementos estruturais do edifício e às forças
internas devidas aos efeitos térmicos.
Na figura 5 mostra-se como é feita a distribuição da carga no painel. A
carga devida ao peso próprio (tanto nos painéis em planos verticais, como nos
inclinados) encontra resistência em um conjunto de parafusos (superiores ou
inferiores). Esse conjunto deve ter folga para permitir a movimentação no
sentido horizontal. Na outra extremidade do painel há mais um conjunto de
parafusos, que resiste ao vento. Para garantir que esses parafusos não recebam
parte do peso próprio, seus furos têm folgas, permitindo a compensação das
tolerâncias dimensionais e dos movimentos diferenciais entre os materiais.

Figura 5
Elevação do painel, mostrando os movimentos potenciais
A forma mais simples de ferragem é um arranjo de cantoneiras soldadas
diretamente no perfil auxiliar. Outro tipo de arranjo é formado por quatro
cantoneiras parafusadas em uma barra soldada na estrutura auxiliar (figura 6).

Figura 6
Arranjo de cantoneiras para fixação do painel (Desenhos A e B)
Outra ferragem utilizada é a chamada aranha (spider),
composta por um suporte com um, dois, três ou quatro braços radiais fixados a
partir de um centro, que sustenta o vidro fora do seu plano. A chapa de vidro é
fixada na extremidade do braço pelos parafusos e o suporte a conecta à estrutura
auxiliar (figura 7).

Figura 7
Fixação através de aranha
Como as chapas de vidro são produzidas com alto grau de precisão, a
tolerância de fabricação é pequena (mínimo de dois milímetros). As
fixações obtidas pela união de elementos parafusados ou soldados, ou pela
usinagem de peças especiais, não apresentam tal apuro na sua fabricação, sendo
aconselhável tolerância de fabricação de cinco milímetros.
As juntas entre painéis são vedadas com silicone estrutural. O
dimensionamento das juntas e o processo de vedação são definidos pelos
fabricantes do silicone e do vidro, atendendo a rigoroso controle. Definida a
junta, deve ser feito teste de resistência pelo fabricante do silicone, seguindo
a norma americana C 794 (ASTM/1993). Após a aplicação do silicone, utilizando
mão-de-obra especializada e respeitado o prazo da cura, deverá ser feito um novo
teste - o pós-cura - em 10% dos painéis. Caso o teste seja positivo, os painéis
serão liberados para a colocação.
É bom lembrar que fachadas envidraçadas, voltadas para áreas com
grande exposição à radiação solar, estarão sujeitas ao aquecimento interno.
Isso implica medidas corretivas, como a utilização de vidros de
controle solar. Outra solução, que é o uso de condicionamento mecânico, além
de aumentar o custo da obra, resulta em aumento do consumo de energia e no custo
de manutenção do sistema. Também é importante prever em projeto soluções que
contemplem a manutenção e a limpeza das fachadas.
*Regina Maria Xavier Costa é professora dos departamentos de Projeto e
Tecnologia do curso de arquitetura do Centro Universitário Izabela Hendrix, em
Belo Horizonte; Ernâni Carlos de Araújo é professor do Departamento de
Engenharia Civil e Henor Artur de Souza, do Departamento de Engenharia de
Controle e Automação e Técnicas Fundamentais, da Escola de Minas, da
Universidade Federal de Ouro Preto, MG
Texto resumido a partir de
reportagem
de Gilmara Gelinski
Publicada originalmente em FINESTRA